E se? História de Luiz Otavio Nogueira da Silva

Luiz Otavio Nogueira da Silva
Nasci em Recife/PE, em 4 de maio de 1957. Moro em Petrolina/PE desde fevereiro de 1991.
Sou médico especializado em Cirurgia Geral, Medicina Legal e Perícias Médicas. Sou pai de 4 filhos, todos homens. Minha mulher, Maria Emília Duarte Diniz, é médica especializada em Nefrologia.
E se?
A nossa existência, ao longo dos anos, é uma sessão infinita de escolhas
Escolhas mudam a nossa e outras vidas. Jamais saberemos o que seria diferente, caso uma decisão ocorresse de forma diferente, em determinado instante.
Há ao nosso redor credos diversos. Alguns tendem a crer que tudo está escrito: os deterministas. Outros creem que cada ação poderá mudar toda uma vida. Nossas escolhas são resultado da vontade, não são predeterminadas pelo destino, pela sorte ou por algum tipo de causalidade determinista.
Sem querer ser soberbo, costumo brincar com os deterministas: quando você vai atravessar uma rua, costuma olhar para os dois lados para ver se vem um carro? Se o determinismo existe, não haveria necessidade; o que tiver que ser, será.
Penso que a essa altura, a maioria dos que me leem, já entenderam onde me situo. Sou um “possibilista”, daqueles que percebem que tudo pode mudar de acordo com cada escolha.
Nossa única “não escolha” é nossa concepção. Antes de sermos um ovo, óvulo fecundado por um espermatozoide, ainda não somos um, mas dois componentes. A capacidade reprodutiva do óvulo decorre de fatores da mãe e do pai, aliados a todas as variáveis possíveis: momento, clima, estado emocional de cada um (até o humor do chefe que exigiu, em determinado momento, uma hora extra do nosso pai ou da nossa mãe), pode mudar tudo, ou seja, continua ocorrendo. Antes da nossa concepção, há uma conjunção tão colossal de elementos que sequer podemos imaginar.
Quantos grandes gênios que trariam o bem para a humanidade deixaram de nascer?
Quantos bandidos ou genocidas também deixaram de nascer, ou pior, nasceram, de acordo com as conjunturas de determinado momento?
Após nascermos, o nosso primeiro momento, não foi propriamente uma escolha, mas uma atitude: respiro ou não? E só isso já foi uma ação que em muito dependeu de uma série de fatores de nossa responsabilidade.
Costumo dizer que, se olharmos para trás em nossa vida, a veremos como uma linha não reta, com tortuosidades, em que seguimos de decisão em decisão. Cada passo é uma escolha. Não podemos enxergar as outras linhas não escolhidas - milhares, milhões, que existiam ao nosso dispor para decidir. No momento em que escolhemos uma, as outras se aniquilaram, definitivamente.
Certa vez, conversando com meus filhos, eu disse que esse era um raciocínio complexo, que, por exemplo, um prego em uma rua, poderia ter mudado tanto a história, que eles jamais teriam existido. Expliquei: meu pai, indo para casa no Jeep dele, poderia ter passado por cima de um prego, furou o pneu, teria que trocar, mudaria o horário de chegar em casa, ou alteraria o humor dele, já cansado. Essas mudanças poderiam fazer com que eu não fosse concebido. Não haveria minha presença na vida da mãe deles, e eles, filhos, simplesmente, estariam na lista dos jamais nascidos. Alguém nascer já representa um imenso acaso; algo astronomicamente improvável, pois somos verdadeiras exceções e, por isso, nossa unicidade é inquestionável.
Olhar o outro como único espécime existente e perceber que a forma de cada pessoa depende de tantas variáveis, que cada um merece o nosso respeito, é algo, por vezes, nem pensado, mas que deve ser levado em consideração, sempre. Há uma frase, não sei de quem, que creio sabia: “Antes de me criticar, calcei minhas sandálias e percorri o caminho que percorri”. Mas, como o tema a ser utilizado neste conjunto de textos deve ser direcionado a cada um que escreve, serei levado a essa particularidade, que muitas vezes considero incômoda, pela percepção de que, ao falarmos de nós mesmos, tendemos a nos valorizar, não de forma desonesta, mas pelas próprias percepções e premissas que estão inseridas na nossa mente.
Nasci em 4 de maio de 1957, pouco tempo depois da Segunda Guerra Mundial, num mundo que ainda tomava conhecimento dos horrores sucedidos, e que se organizava para outros conflitos - senhores da guerra precisam promover guerras para venderem armas e terem garantidos seus lucros—, mas não é de política que falaremos.
Os anos 50, 60 e 70 foram de rebeldias e liberalidades. O planeta, diante das contenções severas do tempo da guer- ra, mais uma vez, entrava na alteração cíclica dos costumes, adentrando as liberalidades e permissividades típicas da- queles anos: sexo, drogas e rock’n’roll -amor livre e costumes “transviados”. Mas, estamos falando de uma parte do mundo. Outros locais só tinham direito mesmo à fome, à exploração pelos donos do mundo. Quando olhamos a história, costumamos apenas enxergar o que a mídia oferta aos nossos olhos; o que não nos é mostrado é o pior, o mais frequente.
Em seguida, nos anos 80, uma nova doença apareceria, refrearia as liberalidades e emergiria nossa sociedade, mais uma vez, em ondas de puritanismos, de preconceitos e ações camufladas. A Guerra Fria estava em curso e havia o constante medo das guerras totais. Era nessa época que eu me formava médico, dezembro de 1982, já há mais de quarenta anos.
Mas, voltemos a mim, primogênito de um casal em que a mãe era viúva, em segundo matrimônio (enviuvara após 7 anos de casamento; tivera duas filhas; a mais moça morrera um ano após o pai, por leucemia). Minha mãe trazia ao casamento com meu pai uma filha que, por ser bem mais velha que eu, tornou-se como uma segunda mãe. Assim, eu tive, praticamente, “duas mães”. Depois de mim, vieram duas meninas: uma, mais nova que eu, apenas dez meses, e outra, mais nova que a anterior, menos de um ano.
Desde criança pequena, ouvia meu pai falar que eu, um dia, dissera que desejava ser médico. Não sei se era verdade, ou se era a verdade dele para minha indução. Ele era engenheiro. Dizia que ser engenheiro era ruim, e que ser médico era que era profissão. Ele tinha um irmão médico, de quem gostava muito, e reforçava nele esse entendimento.
Mas meus olhos eram direcionados para outras ciências. Desde muito novinho, eu era fascinado com o universo. Comecei muito cedo a ler e gostar de ler. Eu lia tudo. Minha mãe era uma leitora voraz e tinha livros que terminavam diante dos meus olhos.
Havia na minha casa livros que foram do meu cunhado (casado com minha irmã, a “segunda mãe”), que havia estudado engenharia. Ele tinha muitos livros de física e matemática e eu achava naqueles livros o que de melhor eu podia ler —devagar, indo e voltando, e entendendo o universo, astrofísica, cinemática, eletricidade, descritos pelos olhos dos grandes cientistas.
Era minha paixão olhar para os céus noturnos e imaginar a imensidão do universo, quantos mundos estavam naquele restrito campo de visão que eu podia ver... Me imaginava em um observatório como o grande da época —Monte Palomar.
Muitos me consideravam um “menino estranho”. Se já se falasse, naquele tempo, em autismo, eu teria sido levado para avaliação?
Ao mesmo tempo em que eu olhava para o céu, olhava para a terra e plantava tudo o que eu podia encontrar. Tive uma verdadeira mini floresta. Até hoje, sou jardineiro amador, de fim de semana. Pena que meu tempo não me deixe maior possibilidade de dedicação. Ao mesmo tempo, tenho uma “oficina” onde faço “coisas” de madeira, “coisas” de ferro e venho aprendendo “coisas” de eletrônica. Até já consigo construir pequenas “coisas” eletrônicas. Outro dia, fiz um amplificador de som, depois de muito estudar física, para entender o que era impedância, potência, capacitores, resistores, e outros artefatos que existem aos montes —o YouTube é excelente professor.
Mas, voltando à minha carreira, a indução “homeopática” paterna de que eu queria ser médico, terminou me levando para a medicina. Cheguei a abandonar o curso lá pelo terceiro período, para estudar física. A Universidade Federal de Pernambuco é renomada no ensino de física, mas a coragem não foi suficiente. Voltei para a medicina, me tornei cirurgião e fui em frente.
Evoluí bem na cirurgia, com conceitos meio diferentes da visão dos que sempre olharam a biologia e a medicina. Meus conceitos de vetores, força, energia, dispersão dos líquidos, gravitação, capilaridade, e outros, ajudavam muito na percepção de “coisas” que influíam em condutas nas cirurgias.
Casei-me pela primeira vez, mas ao cabo de dois anos não deu muito certo. Ficou um filho.
Alguns anos depois, fiquei viúvo desse primeiro casamento.
Apaixonei-me, perdidamente, por Maria Emília, que conheci na faculdade. A reencontrei nos plantões da vida. Hoje, já ligados há 37 anos, jamais pensei que poderia encontrar alguém tão bom como ela é; antes de tudo, amiga de verdade, das que não poupa críticas, quando necessárias, e age de forma verdadeira, sincera e digna. Os pacientes dela a amam, apesar da dureza com que exige que eles sigam as suas determinações. É Nefrologista e conduz, com mão de ferro, a Clínica do Rim. Foi o maior presente que a vida me deu, sem qualquer sombra de dúvida. Temos três filhos. Pobre Emília! Vinda de uma família de irmãs, depois que passa a ter uma vida comigo, tem três filhos dela, e mais outro que era meu.
Cinco homens é demais! Mas ela soube muito bem lidar com esse grande número de cuecas.
Um dia, cerca de cinco anos depois de formado, senti o desejo de visitar a antiga faculdade. Fui com Emília, que também fora aluna de lá. Encontramos um colega dela, que faço questão de citar o nome, pois ele mudou a minha vida. Como eu falava lá no início, pequenas coisas mudam tudo.
O Dr. Marcílio Aroucha, excelente profissional, figura humana ímpar, trabalhava no IML como Médico Legista e era professor do Curso de Medicina. Ele me disse: “Por que não faz o concurso do IML? Paga melhor que a saúde, é da polícia e é uma boa carreira”.
Eu, que já houvera, certa vez, dito que não seria patologista ou legista, porque queria tratar de gente viva— pensei: Se bem não fizer, mal não fará. O perigo maior é não passar no concurso. Ao Dr. Marcílio, minha eterna gratidão. Isso me causou uma mudança de vida que, até hoje, repercute e será eterna.
Estudei e passei. Era um concurso para o interior de Pernambuco. Todos os outros que passaram no concurso e, depois, na “Academia de Polícia”, deram um drible na parte de “ir para o interior”. Mas, eu (que algum tempo antes desejara sair do Recife) e Emília (que havia recebido um convite de vir a abrir um serviço de hemodiálise em Petrolina) encaramos.
Chegamos em fevereiro de 1991 e fizemos o que tínhamos que fazer.
E eu me tornei o único médico legista em Pernambuco, fora do Recife, por muitos anos — de domingo a domingo, 24 horas por dia, 365 dias no ano.
Petrolina/PE e Juazeiro/BA, carentes de cirurgiões, eram um campo aberto para mim.
Operei e operei muito, e muito mesmo, no serviço público, que não era propriamente desejado pelos que já lá estavam. Mas, eu fora eternamente de serviço público —residente do Hospital Getúlio Vargas no Recife, cirurgião do Hospital São Sebastião em Caruaru, Cirurgião do Hospital dos Servidores do Estado no Recife, cirurgião (em duas vinculações - 48 horas) do Hospital da Restauração do Recife, cirurgião do Hospital Dom Malan em Petrolina, e, até hoje, no Hospital Universitário da Universidade Federal do Vale do São Francisco, acostumado com as agruras e exiguidade de recursos materiais e de remuneração, em alguns momentos. Fui em frente, graças à ajuda de muitos que aqui estavam.
Quanto a ser “Médico Legista”, o que seria um emprego, me vi na situação de único legista por muitos anos, único fora do Recife, em um imenso sertão violento. Eu tive que aprender o que não sabia a duras penas. Mas, ao mesmo tempo, fui percebendo algo: o que eu aprendera da física era o meu diferencial; me tornava distinto mais uma vez. A visão do universo me abria os olhos para os trajetos, as energias, os vetores, as modificações cinéticas e outras peculiaridades, por vezes, inaparentes aos olhos menos atentos.
Para os que não sabem, Medicina Legal lida muito mais com os vivos do que com os mortos. Era da minha responsabilidade a perícia junto aos vivos com lesões do corpo, agressões, acidentes, estupros, embriaguez, simulações, queimaduras, choques elétricos, trajetos, psicologia das simulações, malandragens, interesses políticos, e situações, por vezes, temerosas por desagradar alguns interesses.
Foi um novo universo fascinante, tão envolvente que, quando menos esperei, chegou o tempo de me aposentar e dar lugar a um bocado de gente nova e bem-preparada que aqui chegou depois de longo tempo.
Tive apoio de pessoas que jamais posso deixar de citar: José Carlos Bouça Nova (que passou um tempo por aqui e depois voltou para o litoral), Haroldo Farias, Amando Libório Neto, Rogério Sento Sé e Álvaro Ferraz.
Formamos uma verdadeira e harmoniosa família, que se ajudava trezentos e sessenta e cinco dias no ano, um suprindo o outro nas impossibilidades, sem cobranças, sem cara feia, de bom grado e competências exemplares. Não sei como seria sem gente desse quilate ao meu lado.
Mas, existiu alguém que jamais poderá ser definido o quanto é grande: Antônio Carlos Gomes Pereira, Técnico do Instituto de Criminalística. Ele me adotou e o IML, logo que me apresentei. Tornou-se um galpão abandonado, que servia de depósito da delegacia, em um minúsculo IML e resgatou instrumentos que houvera escondido para não serem perdidos e que foram adquiridos desde a inauguração do prédio, anos antes, mas que jamais funcionaram regularmente até nossa chegada.
Antônio, visto por muitos como “estranho”, por mim foi reconhecido como um ser de inteligência privilegiada, muito superior à média das pessoas “normais”. Me pediu livros para estudar. Dei um atlas de anatomia e um livro do França. Em pouco tempo, ele era mais conhecedor de minúcias que eu. Não foram raras as vezes que, ao discordarmos de algumas questões muito particulares, cedi ao olhar dele, sem a menor vergonha. Digo:
Antônio foi, e é a alma, o corpo e o próprio IML Regional de Petrolina. Ainda continua por lá. Poderia já ter se aposentado há muito tempo, mas acho que apenas a morte o tirará de lá.
Não posso deixar de citar outra pessoa, quem considero a que mais me ensinou sobre o viver e o conviver com gente: o AMIGO Edinaldo de Barros Torres, cirurgião vascular, lá de Salgueiro, quem considero imenso conhecedor da natureza humana, um filósofo que não sabe que é, nem admitiria se o soubesse.
Quantas vezes, ele, com um simples olhar, com uma única palavra, mudou tudo do que eu estava fazendo naquele momento: “LUIZ”. Só isso continha centenas de páginas de conselhos não ditos. O irmão que jamais tive. Jamais terei palavras para defini-lo.
Terminei falando pouco de mim. Fui, por 11 anos, perito do INSS. Mas, vinha amolecendo o coração, e, talvez, viesse a desviar-me muito de certos conceitos legais. Felizmente, por imposição do Tribunal de Contas, tive que escolher ficar no Hospital Universitário (onde era
Cirurgião e passei um tempo como gestor), até que o ano de 2020 trouxe a pandemia e impediu este cirurgião, já idoso e suscetível às comorbidades, de continuar.
Fui para o Setor de Saúde do Trabalhador, onde estou até o momento, aproveitando tudo o que aprendi nas artes das perícias e das leis. Atuo junto aos advogados, assistindo-os nas questões de processos em que há matéria médica. Por fora dessa vinculação de emprego, presto assistência a empresas em processos onde há matéria médica: processos trabalhistas, processo de situações adversas em serviços médicos, erroneamente tidos como “Erros Médicos” (que só serão depois de provada a culpa).
E, para finalizar, para me conhecer melhor, mudar algumas “qualidades” adversas próprias das minhas formas de ser, e para aprender a conviver melhor comigo mesmo e com os que me cercam, há vinte anos me submeto a um processo de análise. Não citarei a profissional por não ter a sua permissão e não saber se seria correto o fazer. No processo analítico, vou percebendo o quanto de auto enganos voluntários e involuntários vamos cometendo ao longo da vida. Essa percepção nos torna melhores, nos faz aceitarmos o que somos e a espantar as angústias inevitáveis do dia a dia.
Encerrando esta breve compilação de uma vida, tenho a certeza de que tudo, em algum momento, se encerrará. Retornaremos ao rol dos não viventes e, um dia, nem mais uma lembrança seremos dos, então, temporariamente vi- ventes. Porém, sairei com a certeza de que busquei o melhor para mim, para os que me cercam e para o planeta. Lamento o que não consegui; lamento os equívocos; lamento se machuquei alguém ( que pode até ser intencional ao sabor de um momento, pois somos humanos e passíveis de erro).
Entretanto, o conjunto da obra foi, com certeza, de acertar e fazer melhor pelos seres viventes, humanos ou não humanos.
Mas, e se o pneu do Jeep do meu pai tivesse furado na- quele dia, por aquele prego na rua, lá por setembro de 1956, essa história jamais teria sido contada e a vida de muitas pessoas, que, de alguma forma, interagiram com a minha, teria sido bem diferente.
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