Sim, pode dar certo... História de Érica Alessandra de A. Silva
- nenadafonseca

- 10 de jul.
- 10 min de leitura

Mulher, filha de pai negro e mãe branca, parda, mãe de uma filha maravilhosa, gosto de estudar e ler. Amo minha liberdade e de conhecer lugares e pessoas.
Nasci em Brasília/DF e moro, atualmente, também em Brasília/DF.
Sou formada em Processamento de Dados e Direito, especialista em Direito Digital, em Proteção de Dados e Startups, e em Direito Administrativo. Além disso, sou mestranda em Empreendedorismo e Inovação, empreendedora, palestrante e, finalmente, escritora.
Sim, pode dar certo...
A gravidez na adolescência
Inicio minha narrativa com um trecho de uma canção:
“Não me entrego sem lutar... Tenho ainda coração, não
aprendi a me render...” (Legião Urbana – “Metal contra as nu- vens”).
Começo remetendo à uma cena de minha adolescência. 11 anos (1988), somos dois irmãos, meus pais em processo de divórcio (consequência de uma traição conjugal). Até que, um dia, aconteceu ver meu pai indo embora de casa, pela janela do apartamento. Meu Deus! As lágrimas escorrendo... Eu idolatrava meu pai.
Passamos a ser minha mãe, meu irmão e eu. Minha mãe perdida, sem saber ao certo como conduzir essa situação. Hoje, tenho consciência de toda insegurança e medo que ela sentiu em “não dar certo”. Mas o que é “dar certo”?
Muitas brigas depois, eu virei uma adolescente “rebelde sem causa”. Minha prioridade era estudar e ficar com meus amigos, embaixo do prédio, conversando. Até que, inevitavelmente, aos 12 anos comecei a me interessar pelos meninos. Então, comecei a namorar.
Meu primeiro namorado: um grande amor da adolescência. Sem saber, ele seria minha grande memória de amor. Sim, hoje tenho consciência de que nos amamos, do nosso jeito, sem saber o que isso significava ao certo. Mas, depois de quase um ano, no impulso da adolescência, terminei com ele. Caramba, como me arrependi na época!
Iniciei um namoro com outra pessoa. Após um ano, acabei engravidando. Sem ter a certeza de que estava grávida, pois tinha acabado de fazer 15 anos, terminei com ele. Por algum motivo, não queria mais ficar com ele.
Então começou o meu maior desafio. Senti tanto medo, insegurança, que não tive coragem de falar com ninguém sobre minha gravidez.
Por quase nove meses, ao retornar da escola (1º ano do Ensino Médio), tinha um trecho na caminhada para casa que eu tirava para chorar. Pedia força a Deus, pois não sabia o que fazer. O preconceito, naquela época, era muito pior do que é atualmente. Além disso, eu morava perto do trabalho do meu pai e todos nos conheciam.
Medo do futuro:
Como seria na escola? Como meus pais reagiriam? Meus sonhos: intercâmbio, me formar, queria ser empresária, depois diplomata, conhecer o mundo, depois, Advogada... queria ter uma vida plena... meu apartamento, meu carro, viajar... A minha sensação era de que tudo estava perdido, sem perspectiva.
Então, minha filha nasceu, de parto natural.
Encarar minha mãe e meu pai... Sentia muito medo e vergonha. A dor de ver a decepção nos olhos deles, vê-los
chorando, foi muito dolorido. Mas, prometi que um dia os faria “chorar de orgulho” (mantive isso no meu coração).
No dia seguinte, foi a vez de encarar o pai dela, depois de quase oito meses de término (nessa época, ele tinha 19 anos), para registrar a “Certidão de Nascimento” dela. Não foi fácil.
E, claro, como não poderia ser diferente, vieram as acusações, dúvidas, apontamentos, só não me chamaram de “santa” na época... kkk.
Hoje olho para trás e vejo o quanto isso não era sobre mim... e, sim, sobre quem julgou.
Lembro que ninguém me perguntou (de forma genuína): “Como você está se sentindo?”. Uma adolescente cuidando de uma criança, episódio muito frequente em nosso país.
E, com certeza, nunca fui e nunca serei “santa” por vários motivos, e, o principal deles, SOU HUMANA!
Então, começou a saga pela “aceitação”. Me humilhei várias vezes para que minha filha fosse aceita pela família do pai. Ele mesmo chegou a virar as costas para nós duas (lembro desse dia como se fosse ontem). Lembro que ele chegou a dizer, na frente do juiz, quando pedi pensão alimentícia pela primeira vez: “Não tenho interesse em conviver ou visitar ela!”. E ele, depois, simplesmente, não pagou a pensão, alegando estar desempregado.
Ouvir ele dizer que “não tinha nenhum interesse em ver a filha”, pela influência da mulher dele (que, na época em que namorávamos, era a “melhor amiga” dele) e da mãe, ou não, talvez, por sua própria covardia. Foi muito dolorido.
Como sou morena, de cabelo cacheado, e minha filha nasceu loira, de olhos azuis (pura genética —meu avô e a avó do pai dela eram brancos e tinham olhos azuis), por muitas vezes fui confundida como a babá dela (nada contra a essa profissão, tão necessária), mas, para mim, na época, foi o primeiro preconceito forte que senti na vida!
Um ano depois, ele teve outra filha com sua atual mulher. Minha filha tem uma irmã exatamente um ano mais nova.
A volta por cima: E o tempo passou. ME AGARREI AOS ESTUDOS, pois sabia que era minha “única” condição de sobreviver e sair daquela situação. Nunca reprovei na escola.
Acabei renunciando ao sonho de ser advogada (pois não conseguia passar no vestibular). Nessa época, eu tinha 18 anos. No entanto, por ter feito alguns cursos de informática, acabei me inscrevendo no vestibular para Processamento de Dados. Sim, Tecnologia da Informação. Eu mal sabia que essa seria a “profissão do futuro”.
Então, aos 21 anos, chegou o dia da minha formatura. Nesse dia, cumpri minha promessa (do dia em que minha filha nasceu, lembram?). Fiz de tudo para ser a oradora da turma na colação de grau. Queria muito fazer uma “homenagem aos pais”, e, sim, consegui.
No dia da formatura, mais uma vez, fiz meus pais chorarem... só que, dessa vez, por orgulho. Na verdade, todos choraram. Ao ler meu discurso e olhar para frente, para as pessoas no auditório, percebi que muitos estavam com os olhos marejados. Eu mesma chorei ao discursar. Meu coração pulsava como nunca. Só eu sabia o que aquele momento significava. Então, com um mês de formada, consegui meu primeiro
emprego em uma empresa de telecomunicação (celular). Acreditem, quando iniciei nesta empresa, o celular estava em processo de implantação; não existia como atualmente. Nessa mesma empresa, vivi, de forma velada, o primeiro preconceito profissional por ser mulher. Eram poucas mulheres nessa profissão, no meio da Tecnologia da Informação.
Nessa época, ainda com 21 anos, aprendi a desenvolver o “FOCO” para meus objetivos. Queria ser uma profissional de sucesso para ter e dar uma vida digna para minha filha. Consegui comprar meu primeiro carro (usado, claro). Minha mãe me emprestou dinheiro para a entrada (sim, paguei cada centavo) e a vida seguiu.
Nessa mesma época, a avó de minha filha teve um papel fundamental em minha trajetória, depois de ter dado ouvido às fofocas da mulher de seu filho (pai da minha filha), me disse (por telefone): “Não tenho mais nada para falar com você”. O que eu respondi: “Sério? Tudo bem”.
Depois desse dia, minha vida mudou, pois deixei de me preocupar com quem não tinha nada a oferecer para minha filha. Botei um ponto final naquele contexto de ir atrás de “migalhas”, nem mesmo amor sincero pela filha ou neta. Como diria o autor Flávio Augusto, foi um importante “ponto de inflexão” (decisão) em minha vida.
Nossa, que virada! Depois que me livrei desse “peso”, minha vida deslanchou; claro que com muitos desafios.
Aos 24 anos, comprei meu apartamento (ainda na planta). Quanta dificuldade! Pagar não foi fácil. Numa época, tive que contar moedas, literalmente... cada centavo. Cheguei a ter que contar moedas para botar gasolina no carro.
Na época, estava morando sozinha com minha filha. Por um tempo, a única coisa que tínhamos para lanchar à noite era chá e bolacha de sal. Muitos passam fome, eu sei... De qualquer forma, não foi fácil, pois as dores e dificuldades não se comparam.
Hoje, me orgulho muito dessa época, do processo de resiliência e superação, pois ser fiel no pouco é complexo, difícil e doloroso. A vida seguiu, nos mudamos (eu e minha filha) para o apartamento, eu com 28 anos e ela com 12.
A vida: Resolvi que, no meu aniversário de 30 anos, daria de presente o meu Curso de Direito. Nossa... que sensacional realizar meu sonho de ser “advogada”.
Mas, como nem tudo é perfeito, no 1º semestre da minha tão sonhada faculdade, na minha turma, me deparei com um relacionamento abusivo. Um homem manipulador identificou minha carência... me humilhou (não houve violência física, mas houve violência moral e prejuízo financeiro), até que, mais uma vez, precisei ter a força necessária para dar um “basta” na situação.
Um relacionamento que não tinha nada para entregar, apenas sugava... sofri muito. Eu me julgava: Como acreditei? Como não percebi? Leitores, não julguem, saibam que esse tipo de relacionamento cega. Ajude! Mulheres, tenham a força necessária para sair de qualquer situação de abuso (relacionamento, familiar, profissional, ...), lutem pela sua vida. Você é maior! Não será fácil, mas, recompensador. É possível!
Então, mudei de faculdade; recomecei.
Nesse período, já estava trabalhando em outra empresa cujos profissionais teriam que mudar para outro estado, devido a um processo de fusão empresarial. Não podia acreditar... eu estava realizando meu sonho (faculdade de Direito) ... me recusei a recomeçar em outro lugar.
Resolvi estudar para um concurso público. Encontrei um concurso com inscrições abertas; concurso temporário (cinco anos). Era esse mesmo. Queria paz para terminar meu curso de Direito. Era o tempo que precisava. Só havia um “problema”: eram apenas duas vagas. Não importava, eu só precisava de uma.
Estudei todos os dias de madrugada quando voltava da faculdade. No feriado de Carnaval, a prova seria um mês depois, e tinha prova de título. Adivinhem... na prova objetiva fiquei em 2º lugar. Depois, veio a prova de título. Como eu já tinha feito algumas especializações, fiquei em 1º lugar. Mais uma vez, o estudo me salvou e mudou minha vida. Passei no exame da OAB ainda cursando a faculdade. Me formei.
Depois dos cinco anos, voltei a trabalhar na iniciativa privada, como gerente de projeto. Depois de um ano, recebi um convite para compor a equipe comercial de uma empresa de TI. Pasmem, não tinha a menor ideia de como seria, mas, mesmo assim, eu aceitei.
Dias Atuais: Início de 2020. Em março, de repente, surge o que chamamos de pandemia de Covid-19, a primeira pandemia de nosso século. Todos em casa, isolados. Aprendemos a trabalhar em casa, no conhecido home office 1. Nesse contexto, comecei a atuar como gestora da área de licitações públicas dessa empresa. No final de 2020, começo a ter momentos de muita reflexão sobre a vida: propósito, o que fazer afinal?... começo a me questionar sobre a vida, meu verdadeiro motivo para “acordar” todos os dias.
Quando me dei conta, estava estudando direito para startups . Sim, era um dos meus sonhos trabalhar com inovação (TI) e Direito. Iniciamos uma startup2, eu e meu irmão.
No entanto, em meados de 2021, meu irmão foi diagnosticado com câncer (de intestino). Nossa... só esse momento, já daria um livro. Graças a Deus, ele está curado.
Após a pandemia, em 2022, realizei um outro sonho da juventude: fazer um intercâmbio. Aos 44 anos, fui para Dublin (Irlanda). Passei trinta dias estudando, conheci mais outros três países, fui para Paris, Amsterdã e Londres. Que experiência!
Mais um preconceito da sociedade: “intercâmbio é para jovem”. Pois bem, foi maravilhosa a experiência! Apenas a Idade Física, não deve ser desculpa para não realizar seus sonhos. Faça sua vida em plenitude!
E, antes de viajar, conheci uma pessoa. Achei que ele não fosse me esperar voltar de viagem, mas esperou. Que homem especial! Finalmente, um amor maduro. No que depender de mim, para o resto da vida.
Nesse mesmo ano, pela primeira vez, a empresa bateu a meta da área comercial. Vendemos mais de 200 milhões em licitação.
Adivinhem a recompensa. Isso mesmo, “fui demitida” (depois de tirar a maior nota da empresa em um processo de avaliação interna). Essa é uma longa história, inclusive, com vestígios de assédio moral e machismo.
Então, resolvi abrir minha primeira empresa aos 45 anos. Isso mesmo, resolvi realizar meu sonho de ser empresária. Em menos de um ano, em 2023, recebi o convite para ser sócia de mais duas empresas que, no momento, estou avaliando. Esta, sim, é uma
história que quero contar para vocês com muitos detalhes, pois vale a pena.
Meu maior aprendizado: Meu maior aprendizado: gestão das emoções, resiliência e persistência para suportar todo o processo (caminhada da vida). Chegará o dia em que te perguntarão: “Como você conseguiu?”.
E você responderá: “Eu suportei o processo...”. Sabe o dia em que disseram que eu “não teria futuro”, eu suportei. Quando disseram “você não vai ser ninguém”, eu suportei.
Quando disseram “diga para sua filha não falar mais comigo ", eu suportei. Quando não tinha ninguém para enxugar minhas lágrimas, eu suportei. Quando precisei de socorro e não tinha ninguém lá, eu suportei. Quando viraram as costas para mim e minha filha, eu suportei. Quando duvidaram da minha capacidade técnica, eu suportei. Quando sofri assédio moral no trabalho, eu suportei. Quando sofri preconceito por ser mulher, eu suportei. Quando me
1 A própria casa utilizada como local de trabalho.
2 Empresas em fase inicial, que possuem uma proposta de negócio inovadora e com um grande potencial de crescimento.
demitiram por ser um “risco ao gestor”, eu suportei. Quando me traíram, eu suportei o processo.
Demora... muitas vezes, senão todas. Dói (e muito), mas
suportem...
Todas as vezes que pensei em desistir, eu busquei forças dentro de mim, conversei com Deus, implorei por ajuda... e, em muitos momentos, agradeci. Tenha gratidão!
Erros e sofrimento nos fortalecem. Aprendam com eles!
Esse é o nosso maior e melhor treinamento: vivam todo o processo de sua caminhada, tenha Deus em seu coração, sempre...
NUNCA será “SORTE”! E, sim, a sua capacidade em suportar o processo, ser forte e resiliente por todo o “caminho da vida”!
SEMPRE comemorem suas conquistas, cada uma delas, nem que seja tomando um sorvete, apenas comemorem.
Treinem sua Fé todos os dias... suportem com a certeza de que vocês chegarão onde quiserem...
Mais importante do que as coisas que acontecem com vocês, é “COMO” vocês reagem ao que acontece!
Todos nós estamos no processo da vida... nossa caminhada que só acaba quando morremos. VIVAM A VIDA COM PLENITUDE!! E, sim. , pode e dará certo!!
Assim, finalizo meu capítulo neste livro, pois preciso terminar de escrever o meu “livro solo”. Até lá... um grande abraço!
Dedico este texto à minha filha, à minha mãe, ao meu pai, ao meu irmão e ao meu companheiro — vocês fazem minha vida ter sentido. Também aos meus amigos e, agora, a
Vocês, leitores.
Este capítulo faz parte do livro Storytelling Vidas Reais vol 1
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🌸 Obrigada por permanecer aqui até o final. Que o Senhor derrame graça abundante sobre seus pensamentos e caminhos.
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