Enfrentando desafios: A história de uma vida resiliente - Testemunho de Pedro Ivo Peres de Santana

Testemunho de Pedro Ivo em áudio.
Pedro Ivo Peres de Santana
Nasci na cidade de Pedro Afonso/TO, após morar em Cuiabá/MT, Belém/PA e em Campo Grande/MS. Atualmente, resido em Goiânia/GO.
Vivo, maritalmente, com Maria de Lourdes Pinheiro dos Santos, com quem tenho dois filhos: Luís Felipe e Gabriel Peres. Além desses, tenho uma filha do primeiro casamento, Cristiane Patricia Rego Peres de Santana.
Enfrentando desafios: A história de uma vida resiliente
Eu e minha família partimos de Pedro Afonso, interior de Goiás, em direção a Pium, conseguindo carona até Tocantínia. O caminhão quebrou e passamos a noite na estrada.
Seguimos com outros homens preocupados com ataques dos índios Xerentes. Atravessamos o rio Tocantins, de canoa, para Miracema, onde ficamos na casa de uma senhora conhecida. Em Pium, encontramos minhas irmãs e seu pai.
Moramos em Piunzinho, enfrentando aflição nas chuvas e ventos fortes. A violência também marcou nossas vidas, com agressões frequentes à minha mãe pelo companheiro dela.
Minha avó resgatou-nos e retornamos a Pedro Afonso, onde moramos em uma casa alugada.
Aos 11 anos, comecei a frequentar a escola, mas enfrentava dificuldades. Os padres Redentoristas permitiram que eu estudasse enquanto trabalhava para eles. Mais tarde, fui para Belém, onde empreendi diversos trabalhos, enfrentando desafios sem apoio financeiro.
Meu tio, cabo da Polícia Militar, teve um papel importante em minha vida. Aos 18 anos, servi no exército e trabalhei na limpeza das ruas. Dispensado, fui encorajado a buscar oportunidades fora da cidade. Viajei para Goiânia, onde confundi um medidor de energia com telefone e testemunhei um apagão surpreendente. Em seguida, fui para Cuiabá, onde tive experiências típicas de alguém do interior. Após ficar na casa de Aluísio, filho adotivo de meu pai, consegui um emprego e aluguei um quarto. Mais tarde, mudei-me para uma república de estudantes e trabalhei como propagandista.
Em seguida, fui para Belém, onde tentei montar uma fábrica de sorvetes, sem sucesso.
Trabalhei como vendedor e eventualmente montei meu próprio negócio. Vivi em Belém por 26 anos, enfrentando desafios sem apoio financeiro e aprendendo através da experiência.
Lá, casei-me pela primeira vez com uma enfermeira e tivemos quatro filhos: Vivianne, Cristianne, Pedro Ivo Filho e a caçula Roseanne. Depois, me casei novamente e não tive filhos neste casamento.
Como minha mãe e outros parentes permaneceram em Pedro Afonso, era comum viajarmos juntos durante as férias escolares. Infelizmente, em nossa última viagem, sofremos um acidente de carro de proporções devastadoras.
Numa terça-feira de julho do ano de 1990, viajamos de Pedro Afonso para Miracema, onde planejamos passar a noite antes de seguir para Belém. Já que não havia álcool no posto em que paramos, resolvi continuar com o combustível restante, o que era preocupante. Mais à frente, enfrentei um susto quando um caminhão desgovernado invadiu minha pista. Por sorte, o motorista acordou a tempo, evitando uma colisão frontal. Manobrei para a esquerda, esperando a colisão com a vegetação, mas, ao acordar, o motorista virou bruscamente para a direita, colidindo com a porta direita do nosso carro, um Diplomata.
Ouvimos um estrondo e estilhaços de vidro voaram pelo asfalto. Nesse momento, todas as preocupações e o calor desapareceram, pois havíamos desligado o ar-condicionado para economizar combustível.
Nesse momento, experimentei uma profunda sensação de paz e tranquilidade. Eis a minha visão: eu e minha família estávamos caminhando por uma estrada de terra linda, sem poeira e muito bem conservada, com árvores jovens de ambos os lados, embora estivessem despidas de folhas, apenas galhos com uma grande variedade de cores. Eu não estava andando junto aos meus filhos e esposa, estava um pouco atrás, mas sabia que eles estavam adiante e que logo nos encontraremos, pois tínhamos o mesmo destino. Foi aí que senti uma necessidade incontrolável de respirar. Em minha mente, a imagem de uma baleia em alto-mar, expelindo borrifos de água e ar em movimento. Acredito que tenha ficado algum tempo com o peito subindo e descendo até conseguir respirar novamente. E só então pude ver a extensão daquela colisão.
Levei muito tempo para aceitar o fato de ter voltado para casa depois daquela viagem maravilhosa e, como considero ter morrido uma vez, posso garantir que a hora da morte é o momento mais sublime de toda a nossa vida.
Perdi em um instante, minha filha mais velha, meu único filho homem (que carregava meu nome), minha filha mais nova e minha segunda esposa, com quem não tive filhos. Por sorte, a minha filha Cristiane não estava nesta viagem. No entanto, contra todas as probabilidades, voltei à realidade e testemunhei a devastação causada pelo acidente.
Aceitar o fato de ter sobrevivido, enquanto meus entes queridos haviam partido, foi um processo doloroso e demorado.
Ainda com o coração dilacerado, o Senhor me deu um recomeço. Procurei uma nova esposa, e encontrei Maria de Lourdes, minha melhor companheira de vida. Saímos de Belém, fomos para Mato Grosso do Sul. Devido a percalços financeiros, nos mudamos para Goiânia e montamos uma empresa. Mais uma vez, a ruína financeira nos alcançou. Nessa altura dos acontecimentos eu já estava com 65 anos de idade, e, novamente, sem dinheiro para nada. Socorria--me uma aposentadoria de microempresário que garantiria o alimento da família (agora com dois filhos) e uma morada, que eu acabara de quitar.
E, assim, um novo episódio da minha vida foi se descortinando, até que me tornei um escritor de livro infantil. O projeto de preservação ambiental infantil “O cerrado na escola” tem, inclusive, uma premiação internacional concedida pelo ILBA (International Latino Book Awards), premiadora norte-americana que escolheu e premiou meu projeto, colocando-o entre as três melhores obras infantis ilustradas, lançadas em língua portuguesa, no ano de 2016 e 2017. Não é pouco, já que somos nove países que falam português. Atualmente, são catorze livros. Aos 75 anos de idade, continuo perseguindo dias melhores.
Algum tempo atrás, um amigo próximo me convidou para ir com ele a certo lugar. Chegamos à casa de um amigo dele que havia perdido um filho, recentemente, em um acidente. Choramos juntos com aquele pai, pois ele soube que eu tinha perdido três filhos e ainda estava vivo.
Falei a ele para buscar refúgio em Deus e encontrar consolo em Sua presença amorosa. Orar, buscar Sua vontade e encontrar esperança, mesmo na dor. A morte é um momento sublime, e minha experiência me fez apreciar ainda mais a preciosidade da vida.
Este capítulo faz parte do livro Storytelling Vidas Reais vol 1 - 2023

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