O Golpe - Uma história de Camila Vilhena Adorno Abdão
- nenadafonseca
- há 13 horas
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Sou filha amada de Deus. Conheci Rafael Abdão e, três meses depois, nos casamos. Estamos há 5 anos juntos.
Amo crianças, natureza, conversas profundas e risadas.
Fui proprietária de uma franquia de frozen yogurt, sócia em uma empresa de marketing digital e também sócia do Sushiloko, rede franqueadora de restaurantes de comida japonesa. Fui também sócia e CEO no The 300 Business e fundadora da Biz Company, uma empresa que ajuda os negócios a crescerem por meio da capacitação de pessoas e apoio a instituições sociais.
O golpe
Vivemos tempos desafiadores, cheios de golpes e ciladas. Muitas pessoas são vítimas de armadilhas e enganações. Talvez você mesmo já tenha sido vítima daqueles que tentam furtar suas informações bancárias, ou tenha recebido uma mensagem angustiante de um parente supostamente sequestrado exigindo resgate. Esta história que compartilho é um capítulo da minha vida, mas com um desfecho que vai te surpreender.
Desde criança, tive encontros com pessoas de más intenções. Lembro de um dia assustador na minha infância, quando um estranho agiu de forma repugnante perto de mim. O terror naquele momento me levou a compartilhar tudo com meus pais. Aquele homem teve sorte de escapar da ira furiosa do meu pai, que o procurou, diligentemente, pelas ruas da cidade.
Conforme crescia, embora o corpo amadurecesse mental e emocionalmente, eu permanecia como uma garota, ainda que soubesse imitar o comportamento de uma mulher. Mas não passava disso. Muitos rapazes e homens tentaram tirar vantagem dessa ingenuidade.
Aos 16 anos de idade, perdi minha mãe em um acidente de carro. Me senti bastante sozinha e desamparada. Aos 18 anos, me mudei para Brasília para estudar. Precisei enfrentar o mundo mesmo me sentindo pequena, desprotegida e desamparada. Tive que, literalmente, fugir de várias situações de perigo.
Este e vários incidentes moldaram a minha vida. Cresci em constante vigilância, aprendendo a “ler” o ambiente e pessoas. Desenvolvi uma postura defensiva, andando pelas ruas com um olhar sempre alerta, um sorriso raro e uma seriedade que mantinha desconhecidos à distância. Já me perguntaram, inclusive, se eu era policial.
Não se engane: com pessoas conhecidas e amadas por mim, sou extremamente carinhosa. No trabalho, tornei-me uma especialista em antecipar problemas. Regulamentos e estratégias evitavam contratempos em minhas campanhas de marketing. Quando assumi a gestão da empresa, estabeleci padrões, implementei consultorias e auditorias para garantir a qualidade. Minhas táticas eram tão eficazes que descobri depois que grandes consultorias adotaram o mesmo método.
Recentemente, aconteceu mais uma situação desafiadora. Minha irmã alertou que alguém estava usando meu nome para golpe no WhatsApp. Como todos percebemos a farsa, ignoramos a tentativa e seguimos com a vida.
Logo no dia seguinte, recebi um pacote no prédio onde moro, contendo remédios manipulados para meu cachorro, que padece de uma cardiopatia. Todos os meus dados estavam estampados na embalagem —nome completo, endereço, número do apartamento — mas eu não tinha feito o pedido.
Confusa, contatei a farmácia para informar que havia recebido algo não solicitado. A atendente relatou que um pedido havia sido feito em meu nome, porém para outro número de apartamento. Logo entendi que era um golpe e alguém estava tentando se passar por mim. Informei a atendente. Obtive as imagens do pedido, planejando apresentá-las à polícia. Fiquei mais tranquila por confirmar que a farmácia era, de fato, quem havia feito o medicamento, que a embalagem estava vedada e que, portanto, ninguém estaria tentando envenenar meu cachorro.
Explorando as fotos das mensagens trocadas entre o golpista e a farmácia, vi mãos, aparentemente, masculinas segurando os frascos com as etiquetas dos remédios. Fiquei chocada. Como o golpista obteve aquelas imagens? Será que alguém resgatou as embalagens do lixo e estava usando para o golpe? Poderia ser algum aluno da escola vizinha? Será que era alguém de dentro da própria farmácia? Perguntei ao meu esposo se havia tirado as fotos, mas ele não se lembrava de ter feito aquelas fotos e não reconhecia aquelas mãos. Liguei para o meu pai que, juntamente comigo, tentou entender do que se tratava. Diante da nossa investigação pessoal, entendemos que alguém poderia ter roubado meus dados pessoais pelo celular, e que era importante passar um antivírus nos meus aparelhos.
Ainda, em um acesso de revolta, de posse do número que
havia feito o pedido para a farmácia, liguei para o golpista. Um homem atendeu. Eu não sabia o que dizer. Não havia me preparado.
Perguntei: “Este número é da Camila?” Ele disse que não, e falou alguma outra coisa incompreensível. Perguntei: “Ah, é do esposo dela?” Ele disse: “Moça, acho que é algum engano”. Sem mais o que dizer, agradeci e desliguei. Pronto. Tinha ouvido a voz do homem. E percebi que, agora, ele não tinha somente o meu nome completo, do meu cachorro, da veterinária e o meu endereço: eu tinha acabado de fornecer a ele, também, meu número de telefone.
Dias depois, me dirijo à delegacia para registrar ocorrência. Fui rapidamente atendida por um agente bastante sério, com óculos escuros, atrás do balcão. O ambiente era fechado. Começo a contar toda a história e respondo a todas as suas perguntas. Ele me pediu para levar os medicamentos para perícia. É informado que estava dando os medicamentos para meu cachorro. Ele me informou, então, que eu estava usando algo que não era meu; que isso não poderia, jamais, acontecer. Descubro, nessa hora, que também sou uma fora-
-da-lei. Agora, além de nervosa, estava desconcertada, pois, embora tivesse alinhado tudo com a farmácia, aquilo não poderia ocorrer. Ele continua a investigação e me pede para ver as conversas de WhatsApp.
Ele me informou que a investigação tradicional poderia demorar bastante, e que eu poderia buscar algumas informações relevantes, de forma simples e efetiva. Buscando superar a vergonha de ser uma ‘bocó’ e ‘bandida’ ao mesmo tempo, me sentindo em um episódio de investigação policial do CSI1 , começo a anotar tudo que é necessário. Enquanto isso, ele menciona sobre os perigos de ter ligado para o homem, uma vez que ele já havia tratado ali de vários crimes hediondos. Eu havia me posto em risco, desnecessariamente.
Começo, então, a anotar todas as atividades que preciso fazer. Então, o agente, neste momento, troca os óculos escuros por óculos de grau. Vejo seus olhos. Sinto que criamos uma conexão e um propósito comum: vamos pegar o golpista. Ele olha, mais uma vez, as mensagens do golpista que a farmácia tinha me enviado. Digita algumas coisas no computador. Precisaríamos descobrir quem é que morava no outro número de apartamento para onde o pedido havia sido feito. E, cheia de determinação e caneta na mão aguardando as próximas orientações do agente, ouço dele: “É um japonês que mora nesse apartamento”.
Imediatamente, vem à minha memória a imagem de meu vizinho japonês com seus cachorrinhos. Lembro-me do dia em que meu esposo comenta comigo de sua conversa com o vizinho que disse que um de seus cachorrinhos iria morrer, pois não havia tratamento para ele.
Olho assustada para o policial. Meu rosto fica vermelho. Peço a gentileza de devolver o celular, pois preciso fazer uma última investigação. Ligo para meu esposo. Ele atende. Pergunto: “Rafael, você mandou fotos dos medicamentos para nosso vizinho japonês?”.
Ele responde: “Sim”. Eu informo: “Então foi nosso vizinho que pediu os medicamentos para a farmácia”. Desligo.
Olho para o agente. Ele olha para mim. Eu seguro o riso. Não consigo. Começo a rir. Rir bastante. Rir de nervoso. Peço desculpas por tê-lo feito perder seu tempo. Ele, tranquilamente, começa a me dar instruções sobre como deveria proceder para informar ao vizinho sobre o ocorrido.
Afinal, eu tinha surrupiado os medicamentos dele.
Pergunto o seu nome. Ele responde. Agradeço imensamente, rindo bastante. Ele abre um sorrisão e vê um dos dentes da frente amarelado, e ele diz: “Fico feliz que você esteja saindo daqui feliz. Em geral, lidamos com muitos problemas sérios”. Respondo a ele: “É porque Deus me ama, e nem para golpe estou prestando mais”. Rimos juntos. Fui embora. Voltei para casa, peguei o celular e fui ligar para o número. Estava registrado o nome: Golpe. Comecei a rir de novo. Liguei para ele, o encontrei e expliquei toda a situação.
Resolvi ir também junto à farmácia, com meu pai e meu esposo. Que bagunça!
Continuo em estado de alerta, vigilante aos perigos e prudente em minhas ações. Mas sei que sou cuidada e amada, e que, mesmo em situações ruins, podemos transformá-las em algo inusitado, leve e divertido.
1 (Ing.) Crime Scene Investigation – série de TV estadunidense.
Este capítulo faz parte do livro Storytelling Vidas Reais vol 1 - 2023


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